Atordoante! Espetacular! As palavras fogem quando é necessário descrever o que é o primeiro episódio de Black Mirror, O Hino Nacional (National Anthem), da Netflix. Ele nos joga diante de uma realidade que estamos presos. A vida moldada pela opinião dos outros. A opinião pública centrada em sua conectividade, buscando satisfazer sua curiosidade e sua perversidade obscurecida pelo cotidiano.

O alegrar pela desgraça. A facilidade com o julgar aquilo que está aparentemente em outro mundo, em outro universo. Como está do outro lado da tela, então perde a humanidade e passa a ser algo para entreter. Satisfazer o público. Pessoas que julgam e mudam de opinião facilmente. E essa inconstância pode ser manipulada. Por causa da calor do momento, inversões de valores e acostumar-se com atos abomináveis tornam fria a plateia. Amortecem suas visões.

Os deuses se vingam dos homens atendendo suas preces

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Sobre o episódio O Hino Nacional, de Black Mirror

*** Alerta de Spoiler *** Se não quiser saber o que acontece no episódio O Hino Nacional da série Black Mirror, não continue a leitura.

O episódio é absolutamente angustiante. Desde o início mostra como uma vida pode ser mudada em apenas um dia. O primeiro-ministro inglês Michael Callow (Rory Kinnear) é preso em uma armadilha mental onde tem que fazer sexo com uma porca para salvar a Princesa Susannah (Lydia Wilson), que foi sequestrada naquela madrugada.

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A primeira visão que temos da situação é uma discussão dentro na reunião do gabinete de crise, onde o vídeo do sequestrador está sendo mostrado para o primeiro-ministro. Primeiro a carga emocional da princesa sendo ameaçada, depois a única exigência. A humilhação ao vivo do primeiro-ministro.

A informação quer ser livre

Como reflexo, ele ordena que a situação seja mantida em segredo. Seus assessores informam que é impossível porque o vídeo foi postado no Youtube. Na verdade foi por lá que eles ficaram sabendo dele. E por mais que eles tentassem remover o vídeo, cópias já haviam sido feitas e postadas. Black Mirror expõe uma verdade: a viralização é algo incontrolável. A informação quer ser livre, isso nos mostra Cris Anderson em seu Free: O Futuro dos Preços.

Com a comunicação fácil e barata, torna-se impossível tentar conter alguma informação de interesse das pessoas. Se ela vaza por algum caminho, torna-se de domínio público. O que nos leva a pensar a respeito de privacidade. Como podemos manter em segredo nossa intimidade em um mundo onde as coisas são tão facilmente compartilhadas?

Na verdade nossas informações já estão sendo compartilhadas pelo mundo digital (e também no real). Sabe aquele site de compras que mostra exatamente o que você gosta? Não parece que ele conhece você? Na verdade ele conhece! Os rastros digitais, cada clique, cada compartilhamento, cada visualização de vídeo, todo esse conjunto de informações sobre o que gostamos está armazenado e sendo processado em poderosos computadores com afiados algoritmos de Big Data.

O preço da tecnologia

Esse é o preço a se pagar pela facilidade da tecnologia: a perda da privacidade. Isso foi demonstrado por Yuval Harari em seu Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã. segundo o autor estamos saindo da era do Humanismo (onde o centro da atenção era o homem e seu bem-estar) e entrando na era do Dataísmo (o centro se desloca para as informações).

Ele prova isso lembrando que quando vamos a um show, por exemplo, passamos muito tempo tirando fotos, fazendo vídeo, dando check-in, verificando as curtidas no Facebook do que propriamente aproveitando o momento, curtindo a experiência real. O mundo sabe onde estamos, o que estamos fazendo e temos nossa autoimagem baseada no que os outros irão comentar, quantas pessoas irão aprovar virtualmente o que está sendo feito.

Vemos nudes de famosos que vazam na Internet e que se tenta impedir seu espalhamento. Tudo em vão. A Internet tem muitos braços, existem virtuais infinitos pontos de armazenamento.

Se caiu na Internet, se tornou eterno

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Mídia tradicional como validador da mídia online

Desde das 3 horas da manhã o vídeo com o sequestro da princesa estava no ar, tendo recebido milhares de visualizações. A notícia se espalhou pelas redes sociais e aplicativos de compartilhamento instantâneo. Porém pudemos perceber em O Hino Nacional de Black Mirror que as pessoas mesmo tendo contato com a informação, viram com desconfiança até que apareceu na mídia tradicional. Em especial a televisão.

Quando alguém diz: “se fosse verdade algum canal teria noticiado” está implicitamente mostrando que existe uma descrença nas informações virtuais. Isso por causa da enxurrada de informações que aparecem a cada segundo e também pela facilidade de se postar algo na rede.

Dessa maneira, Black Mirror mostra como a mídia tradicional ocupa um espaço importante no acesso às informações: ela confere credibilidade aos fatos. E isso é um poder imenso. Por exemplo, o que aparece em um telejornal com boa reputação, automaticamente passa a ser visto como um reflexo da realidade.

Certa vez eu ouvi o William Bonner dizer que muitas pessoas viam o Jornal Nacional na Rede Globo para confirmar se o que tinham sabido durante o dia era de fato verdade. Por isso a importância da credibilidade

A portador empresta sua credibilidade à mensagem

A opinião pública

Conforme muito bem retratado no filme O Quarto Poder, com Dustin Hoffman e John Travolta, além do Executivo, Legislativo e o Judicário, a Opinião Pública tem uma força avassaladora. O que as pessoas em geral pensam influenciam os rumos da História. Isso acontece desde que a Humanidade se organizou em cidades, porém ganha dimensões poderosas quando as informações circula vorazmente ao redor do globo. Todo mundo quer ter uma opinião, todo mundo julga o que está ao redor. E tenta mudar a opinião de quem ele tem acesso.

Isso faz com que existam massas de opiniões que mudam ao sabor dos eventos. Como estamos em uma época de consumo incessante de informações, não existe o tempo necessário para se aprofundar e refletir sobre o que está sendo exposto. Nesse episódio de Black Mirror, todas as decisões tinham que ser tomadas até as 16 horas, ou seja, tudo tinha que ser pensado imediatamente.

Isso mostra o quanto somos imediatistas com as nossas reações. A opinião pública recebe uma informação e já apresenta seu veredito, independentemente da possibilidade de existência de outros detalhes importantes. O que aparece na mídia é o suficiente para que uma pessoa seja radicalmente a favor ou contra algo.

Além disso, mostra que o que o povo pensa, pode induzir uma pessoa a fazer algo que ela mesma jamais faria em outra situação.

O Hino Nacional

O próprio título do episódio traz uma crítica severa. Em nome do Estado e do que o povo espera, uma pessoa pode perder sua dignidade. O Hino Nacional mostra o que o povo valoriza, é a exaltação dos feitos e das suas características. Para Black Mirror, existe um Estado montado baseado no mundo virtual, no jogo de informações e manipulações mentais e emocionais, que impactam na realidade.

O que a nação glorifica? Qual o sistema de valores dela? O que de fato vale mais em detrimento de outras coisas?

A elevação de uma pessoa em nome da pátria tem muito mais a ver com o que as pessoas em geral pensam disso do que baseado em princípios éticos. Black Mirror nos convida a pensar se o que estamos fazendo tem a ver com o que realmente pensamos ou se estamos sendo influenciados por aquilo que os outros pensam. Quando ouvimos frases como: “é o que todo mundo faz”, mostra que existe uma influência severa das ações e opiniões dos outros nas tomadas de decisão. Assim, quem são seus conselheiros?

O efeito rebanho e a perda da sensibilidade

Certa vez ouvi que muitas pessoas querem ter opinião, mas poucas querem pensar sobre os fatos. Assim, as pessoas se agrupam em grupos que compartilham as mesmas visões. Zygmund Bauman dizia que as redes sociais são ecos dos pensamentos de quem está lá. Ou seja, moldamos (ou são moldados) o que vemos, para confirmar aquilo que pensamos. Isso, segundo o sociólogo, aumenta a polarização das ideias, afasta o debate. E com o aumento da vida digital, as pessoas estão perdendo sua capacidade de interagir pessoalmente. Cara a cara.

Isso tira a sensibilidade das pessoas. Assim, o que aparece na mídia, passa a ser visto como sendo algo distante das realidades. Como pode ser visto no comentário de um telespectador no hospital que disse com naturalidade que se o sequestrador for um terrorista, iria cortar a cabeça da princesa. Veja, ele estava se referindo a uma figura nacional amada e reverenciada.

Camuflagem

Além disso, quando uma pessoa se vê em meio a outras sente-se camuflada. Escondida atrás de seus eletrônicos ou no meio da multidão, uma pessoa se sente à vontade para dar vazão às suas Sombras. Isso acontece quando existe, por exemplo, distúrbio civil. Podemos encontrar um cidadão que nunca furtaria, por estar em meio a essa confusão, sente-se à vontade para entrar em uma loja e saquear.

A moral não pode estar à mercê do momento

Quem fala muito bem sobre isso é o Philip Zimbardo em seu Efeito Lúcifer. Nele, o autor sustenta que se as pessoas estiverem em uma situação que podem ser más, elas tenderão a agir dessa forma. Ele formulou essa visão em seu famoso experimento de 1971, na Universidade de Stanford, onde ele separou seus alunos de Psicologia em dois grupos (guardas e prisioneiros) no porão do prédio de psicologia e estabeleceu uma rotina de prisão para eles durante as férias. Depois de um tempo, percebeu o quanto os pacatos alunos que se tornaram os guardas passaram as ser crueis com seus colegas prisioneiros.

Mais para o meio desse episódio de Black Mirror, quando o sequestrador envia um dedo cortado, como se fosse da princesa. A opinião pública que estava a favor do primeiro-ministro não ceder às exigência, mudou completamente. Criou em suas mentes uma história onde ele seria o vilão, caso não fizesse o que o sequestrador quisesse.

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As pessoas julgam e criam histórias em suas mentes

A esposa do primeiro-ministro mostra toda sua preocupação inicial com a situação ao dizer ao seu marido que mesmo que ele não transe com um porco, as pessoas já estarão imaginando isso. O fato já está na mente das pessoas, no imaginário popular. Temos que tomar muito cuidado com aquilo que é implantado em nossa mente, com o que querem que acreditemos. O que mexe com nossa capacidade de imaginar.

Nossa mente não diferencia memória de imaginação

Existe um ímpeto da mente humana em encontrar padrões em tudo que está exposta. Mesmo onde não existam nenhum. Se você já viu alguma animal ou pessoa em uma nuvem sabe do que estou falando. Ao encontrar padrões, mesmo com muito poucas informações, passam a fazer um julgamento baseado em seus preconceitos, histórias de vida e opiniões alheias. O problema é que toda pouca informação é perigosa, não temos todo o panorama e nos vemos em posição para dar um veredito?

Saindo da vida chata

Eventos espetaculares, fora do comum, chama a atenção porque as pessoas em geral estão levando suas vidas monótonas, sem graça. Essas situações trazem um pouco de cor para suas existências. E quanto maior o apelo emocional, melhor. Se o que está sendo feito no dia a dia não está trazendo satisfação verdadeira, não tem a ver com a Missão de Vida do indivíduo, então realmente os dias serão chatos, sem graça. E será preciso que algo novo sempre aconteça para sair da mesmice.

Você fica animado quando ouve a vinheta do Plantão da Globo? Entra diversas vezes no UOL ou no Globo.com para ver se tem alguma notícia novas? Acessa várias e várias vezes por dia o Facebook, Instagram ou Twitter? Talvez possamos pensar em ter mais preenchimento de felicidade em sua vida real.

Fazendo parte

Quando no final desse episódio de Black Mirror uma menina quis desligar a televisão porque fazia mais de uma hora que o primeiro-ministro estava com a porca, um rapaz do lado dela a impediu, dizendo que eles estavam presenciando um evento histórico.

Veja, para ele não importava o fato em si, mas sim se ele sentia que estava fazendo parte de algo grande, importante.

Isso tudo é um alimento para o ego. Julgar, tirar sarro, criticar significam que o outro está errado e você está certo. Isso é o que Eckhart Tolle diz em seu Um Novo Mundo: O Despertar de Uma Nova Consciência.Ele fala que pessoas que passaram por eventos tristes em suas vidas alimentam seu corpos de dor. Uma energia que se alimenta de outras coisas tristes, de dores, de raivas, que busca estar em contato com o sofrimento do outro para aliviar um pouco a sua própria dor. Os alemães chamam isso de Schadenfreude.

Se alguém vê outro em situação pior que a dele, então gera um pouco de felicidade. Isso é muito triste.

Chamou a minha atenção o fato de que toda euforia existente antes da transmissão foi transformada em repúdio quando estava sendo realizada. Isso nos mostra que existe uma distinção entre a fantasia e o mundo real. O que estamos em contato verdadeiro pega em nossa humanidade, em nossa empatia, em nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Mesmo amortecidos, temos princípios fundamentais em algum lugar de nossa alma.

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Um ano depois, tudo ‘normal’

O final do episódio nos mostra que um ano depois tudo havia voltado à normalidade, com as pessoas levando as suas vidas, como se nada tivesse acontecido. A princesa estava grávida, o primeiro-ministro estava jogando bola. A velocidade com que se consome essas informações é a mesma que se esquece delas e se busca novas. Afinal de contas, quem foi mesmo o vencedor da oitava edição Big Brother?

Com relação ao primeiro-ministro, na verdade sua popularidade até subiu depois do ato (!?!?). Ele foi visto como um herói e as pessoas passaram a gostar mais dele. Ele fez o que as pessoas queriam. Quando uma pessoa faz isso, a sociedade retribui com sua atenção ou com seu dinheiro, por exemplo.

E os custos pessoais, no mundo real? O episódio termina com as sequelas verdadeiras: a esposa do primeiro-ministro apesar de ter posado sorridente ao lado dele para as fotos dos jornalistas, quando chega em casa não fala com ele. Isso criou uma marca na relação deles. Atendeu ao que o mundo queria, mas se distanciou de quem estava ao lado dele.

Obra de arte?

No final do episódio, é noticiado que o autor do sequestro declarou que fez tudo isso porque estava fazendo a maior obra de arte do século XXI. Em que medida isso poderia ser avaliado? Realmente vale tudo para deixar sua marca no mundo? Naturalmente, não! O limite está sempre no outro. Não podemos fazer o que bem entendemos se isso de alguma forma faz mais para o próximo.

 

De qualquer maneira, vemos um deslocamento do conceito de arte. Black Mirror nos alerta que hoje o que é valorizado é aquilo que tem audiência, atenção das pessoas. É contado para nós que a transmissão ao vivo foi vista por 1,3 bilhão de pessoas. Essa seria a ‘arte’ de nossa época. O jogo psicológico, a construção do contexto, a manipulação mental para conseguir colossal atenção, a principal moeda dos dias de hoje.

A mensagem

Quando a equipe do gabinete do primeiro-ministro é informada que a princesa Susannah está livre, ficamos sabendo que ela foi deixada sedada no meio da cidade meia hora antes do horário da exibição do primeiro-ministro. Em uma rápida reflexão, é perguntado o motivo do sequestrador ter feito dessa maneira.

Quando se chega à conclusão de que ele sabia que todos estariam em frente à televisão e que ninguém descobriria que ela estava na rua, sã e salva (e teoricamente não precisaria acontecer nada entre o primeiro-ministro e a porca). Então Alex Cairns (Lindsay Duncan), uma das assessoras dele mata a charada: essa era a mensagem.

Nesse ponto a fantasia tomou uma proporção maior do que a realidade. Todos em Londres estavam vivendo em um mundo paralelo, independente da realidade. Quando estamos preso no mundo digital, muitas oportunidades, sonhos e ameaças estão acontecendo ao nosso lado. E podemos não estar cientes disso. Pior, podemos agir imaginando que algo está acontecendo no mundo real, mas ele só existe na fantasia.

Resultados concretos vindos de um mundo imaginado, criado pela mente de alguém que está no controle.

Leia também: Análise de 15 Milhões de Méritos, o segundo episódio da primeira temporada

Bônus: O Espelho Negro

O nome da série é genial. Black Mirror no mostra que o que vemos nas telas de nossos celulares, computadores, televisões são reflexos de nós mesmos (elas são pretas e quando estão desligadas viram um espelho 😉 ). Moldamos o que vemos com a nossa audiência. Com a popularidade que oferecemos. Programas sem audiência saem do ar. Ou seja, se algo está sendo mostrado, é porque pessoas se identificam com aquilo. Assim, para entendermos um pouco da alma humana, podemos olhar o que tem grande destaque na mídia. Esse é o reflexo de quem assiste.

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