Segundo Platão e depois aprimorado por Aristóteles, existe um procedimento com quatro estágios para a criação de uma República ideal, um grupo ideal de pessoas. Podemos entender esse conceito de uma forma mais abrangente, não apenas em questões de Estado. Quando pensamos em estruturação de uma empresa, família, grupo de retirantes, time de futebol ou qualquer outro conjunto de pessoas, podemos aplicar esse método. Afinal de contas, estamos pensando sobre um conjunto de pessoas que o esperado é que ajam de forma coordenada e harmônica, na busca de uma boa vida e na conquista de determinados objetivos.

Primeiro estágio do grupo ideal: A vida mais feliz

Aqui existe a determinação do que consiste a vida mais feliz para o indivíduo. Aqui refletimos sobre a teoria ética, sendo a resposta que se encontra para essa reflexão o ponto de partida da teoria política.

Tudo deve se apoiar no que alegra a pessoa que vai fazer parte da estrutura. Para fazer parte e oferecer o que possui de melhor, ela tem que ter a percepção de que a estrutura faz parte, de alguma maneira, do caminho para aquilo que o faz feliz.

A conquista de seus sonhos, proteção física, o encontro com o prazer, a experiência de bons momentos de vida, a proteção de sua família. Qualquer que seja a resposta encontrada para o público específico, todas as decisões políticas devem ser baseadas nela. Assim, temos um poder central que está preocupado com as necessidades dos seus membros, o que gera bem estar, engajamento e consequentemente resultados positivos.

Como saber o que consiste a vida mais feliz em um conjunto grande de pessoas? Esse é um dos principais desafio da liderança: conhecer o que se passa na mente, no coração e na alma de seus liderados. Naturalmente o que alegra um, pode entristecer o outro.

Existem alegradores universais (como realização pessoal, pertencimento de grupo, segurança etc.). Conhecer a alma, a mente e o corpo humano permite saber o que alegra a maior parte das pessoas.

Outros são específicos de determinados grupos. Para isso, é preciso ter empatia e comunicação. Estar aberto para investigar o outro, para conhecer os meandros de seus desejos e seus medos.

Com conversar abertas, livres de julgamento ou punições, perguntar diretamente sobre o pensamento de um conjunto tão grande quanto possível e representativo.

Uma estrutura deve antes de qualquer coisa captar as emoções de sua audiência e atender aos anseios de quem faz parte dele. Em troca, haverá apoio.

Persona

Um recurso que pode ser usado pelo líder e sua equipe é a de buscar criar a(s) persona(s) de seu público. Como seria um personagem que representasse as características de um grupo. Por exemplo, se formos pensar em um brasileiro, que imagem vem à mente? Esse ‘brasileiro’ médio que imaginamos é a persona que temos com relação ao conjunto de milhões de pessoas que nasceram no Brasil.

Fabiano em Vidas Secas de Graciliano Ramos é a persona do sertanejo que foge da seca. Ele possui características que podem ser encontradas em um sertanejo escolhido ao acaso dentro daquele contexto.

Quanto mais informações, com pesquisas qualitativas e quantitativas, com atenção e reflexão, mais acertada será a persona. Depois de determinada esse público médio, podemos pensar no que o alegra. O que faz essa persona feliz? Isso ajuda a estabelecer e manter o foco.

Com essa técnica, o líder não se perde em detalhes e mantém sua mente na totalidade. Busca o ponto de equilíbrio de seu público.

Segundo estágio do grupo ideal: objetivos comuns

Sabendo o que alegra as pessoas que você deseja liderar, torna-se possível determinar quais são os objetivos em comum. Sabemos o que queremos enquanto grupo e que de alguma forma não conseguiríamos sozinhos. Isso mantém a coesão social. Quando um indivíduo percebe que para conquistar aquilo que quer precisa necessariamente ter outros ao seu lado, ele se alegra por tê-los. E luta para mantê-los próximos e cumprindo seus papéis.

Suponha que exista um grupo de pessoas presos em uma ilha deserta e que precisam sobreviver até chegar o resgate. O que alegra essas pessoas (primeiro estágio) é se manterem vivos e minimamente confortáveis. Sabendo disso, torna-se claro o objetivo comum (segundo estágio): um cuida do outro para manutenção da vida.

Em momentos de crise ou de dúvida, o líder pode lembrar quais os objetivos que levaram a esse grupo ideal de pessoas se unirem. Esse é um excelente método para unir pessoas. Conectar as mentes não apenas com a busca de algo bom, mas também para enfrentar um inimigo em comum. Um cuidando do outro, fazendo sua parte para que todos cheguem em seus destinos.

Terceiro estágio do grupo ideal: componentes físicos e institucionais

Após saber o que alegra seu público e quais os objetivos comuns que vão uni-lo, o líder deve pensar quais são as estruturas necessárias para que seja possível realizar esses objetivos e trazer felicidade?

É preciso elaborar uma espécia de catálogo dos componentes necessários, tanto no plano físico, quanto institucional. Assim, o teórico pensa sobre o que sustentará essa estrutura, como por exemplo:

  • Quantidade de pessoas desejada
  • Tipo e tamanho de sua estrutura física (casa, terreno etc.)
  • Profissões necessárias
  • Grupos de controle que devem existir
  • Recursos tecnológicos à disposição
  • Dispositivos de punição e recompensa presentes

Nesse momento está sendo desenhada a espinhal dorsal da estrutura. Sabendo quais são os componentes necessários, facilita a transição desse agrupamento idealizado para a prática. Colocar no papel o que é necessário, escrever o código de regras, definir as atribuições de cargos, tomar as decisões críticas e estabelecer mecanismos para as situações inesperadas.

Quarto estágio do grupo ideal: formas particulares

Após saber quais os componentes dessa estrutura, o líder passa a determinar a forma que deve dar a cada integrante. O que cada um irá fazer? De que modo? Como eles trabalharão de forma coordenada? Quem é o responsável pela circulação de informações? Quem verifica as conformidades?

Esse é o último estágio, absolutamente prático, visando a forma que as pessoas, em conjunto, possam constituir uma equipe que tem a condição de agir e conquistar seus objetivos.

Reparemos que aqui não é necessariamente personalizado. Ou seja, não estamos falando que apenas uma pessoa em especial tem condições de fazer determinada função. Um grupo bem organizado se divide em atribuições.

As pessoas que as compõem podem mudar, as funções não. Em outras palavras, não importa muito se será A ou B que cumprirá certa tarefa. Se por algum motivo de impedimento A não puder cumprir com o que tem que ser feito, pode ser muito bem substituído por B e a estrutura se mantém coesa e funcional.

Tomemos um barco como exemplo

  • Primeiro estágio: Saber o que alegrará os marinheiros (ou o que não entristecerá), como por exemplo não afundarem com seu navio, terem o que comer, estarem livres de doenças
  • Segundo estágio: Definir objetivo em comum. Manter a todos vivos. Chegar a determinado porto para reabastecimento e se defender de agressões externas.
  • Terceiro estágio: Entender o que é necessário para que isso seja possível. Precisa-se do barco com suas partes fundamentais funcionais, a área de alimentos e munição devem estar protegidos, é necessária duas dezenas de marinheiros para manter o barco, existe uma linha de comando, desvios são tratados com a caminhada na prancha.
  • Quarto estágio: Quem será o remador, de quem será a responsabilidade pela cozinha, qual marinheiro ficará na torre de observação, quem fará o inventário das armas e munição, quem ficará no timão etc.

Bônus

Platão e Aristóteles sustentam que a criação de tal grupo ideal não se resume em fazer um aglomerado de todas as características desejáveis que é possível pensar. Muito pelo contrário, a principal premissa é o princípio de autarkeia, ou seja, a autossuficiência. Ou seja, o melhor grupo é aquele que possui todo o necessário para trazer a felicidade aos seus membros, nada além disso.

Assim, o líder deve oferecer ao seu grupo apenas o que é indispensável, imprescindível para que sejam felizes. De resto, deve criar condições para eles possam gerar a própria felicidade. Com isso, o líder consegue concentrar sua energia nesse objetivo principal, manter a coesão de sua estrutura e motivar seus membros a agirem e conquistarem.

“Aquele que está pronto para aprender sem mostrar-se nunca cansado, a este chamaremos com justiça de filósofo” – Platão

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