The End of the F***ing World T1:E1

//The End of the F***ing World T1:E1

Uma série para entender a mente dos jovens. Tanto para os adultos compreender o que passa na mente dos mais novos, como para eles mesmos se entenderem. The End of the F***ing World é uma série sobre descobertas, revoltas e não pertencimento. Algo está errado com a forma que as coisas são, mas parece que ninguém percebe.

Existe um vazio existencial em todos os personagens, porém apenas os dois principais percebem isso. E querem sentir algo. Querem sentir que estão vivos, que estão fazendo algo que os faça de fato felizes. Cada um a sua maneira, está buscando a felicidade.

Isso faz com que haja um conflito entre a vida que levam e o que gostariam de fazer. Então buscam essa realização. Assim acontece com os adolescentes, que estão vendo cada vez mais próximo uma vida adulta. Eles estão experimentando cada vez mais as relações não mais como crianças, mas agora mais velhos.

E isso tudo envolve a relação entre pessoas, gente que se vê forçado a interagir em uma vida que não compreende muito bem e que não quer que seja dessa maneira. Mas ainda não tem condições para ditar qual vida quer levar.

Daí surge o conflito, o vazio e a vontade de revolucionar.

Aqui está o trailer da série:

*** Alerta de Spoiler *** Se você não viu ou não quer saber sobre o que acontece no E1:T1 da série The End of the F***ing World, pare a leitura aqui.

Tudo começa com a apresentação fria, direta, autoconsciente de James (Alex Lawther). Ele diz claramente que acredita ser um psicopata. Ele se vê desconectado de emoções e isso o angustia. Ele deseja sentir, viver, ter emoção. Isso chega a tal ponto que enfia sua mão em uma fritadeira, para que mesmo sendo dor, esteja de alguma forma mexendo com ele. James não queria a dor, queria sentir algo. O que quer que fosse.

Então percebeu prazer em matar animais. A adrenalina, a sensação de erro, o poder o fazia sentir bem. Passou a planejar algo maior: matar uma pessoa.

Essa evolução dos desejos os jovens sentem com aquilo que estão envolvidos. Sejam bebidas, jogos eletrônicos, festas, esportes ou o que estiver mais de acordo com suas naturezas.

O fato é que é muito fácil se viciar naquilo que dá prazer. Quando não existem limites, o que era feito passa a ser comum, não oferece a mesma intensidade de sensação, o que faz com que a pessoa busque mais e mais.

Alyssa

Nesse contexto James conhece Alyssa (Jessica Barden), outra adolescente de 17 anos que também sente um vazio em sua vida e chega em um ponto que quer que as coisas mudem. O próprio nome da série já mostra a inconformidade com o status quo, eles querem que esse mundo que vivem desapareça. Mas sentem que não podem se expressar como gostaria, isso é representado nos asteriscos do ‘F***ing’ no título da série.

Alyssa não gosta de conformidades, o que se encaixa para ela não serve. Perder a personalidade para ela é perder a graça, o encanto. Por isso Alyssa se aproxima de James. Ela não sabe direito o que encontrar naquela relação, mas sabe que algo diferente está ali.

Ela nem desconfia que ele planeja matá-la.

Esse flerte inconsciente com o perigo é muito comum na juventude. Ações inconsequentes em busca de emoções.

Personagens com vazio interior

James lembra um pouco o Sr. Meursault do livro O Estrangeiro escrito pelo Nobel de Literatura Albert Camus. Ambos possuem um distanciamento emocional dos outros e de suas próprias ações.

Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.” Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. – O Estrangeiro

Eles verdadeiramente não se importam, não estabelecem relação empática com ninguém. Não existe espaço para emoções em suas vidas.

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Porém, diferentemente do personagem de Camus, que simplesmente existia sem um propósito definido, James tem um porquê: quer sentir emoções fortes à sua maneira. Ele sente falte de algo, tem desejo represado.

Extravasando os vazios

Os dois sentem-se esvaziados e cada um tem suas formas de aliviar essa tensão. James tem a pulsão pela morte, deseja a destruição e a violência, dentro de sua redoma insensível. Alyssa tem a pulsão pela vida, deseja sexo, quer conhecer o mundo, pessoas interessantes. Essa química entre os personagens deu muito certo, pois mostra duas facetas que as pessoas possuem dentro de si e as projeta para serem observadas com cuidado.

pulsão

Raiva e tesão. Os jovens são tomados por vontades de grande energia, que muitas vezes não sabem como lidar com elas. A forma que encontram está na experimentação e na observação dos mais velhos. Querem entender o mundo que está ao seu redor e a forma que ele se relaciona com seu universo interior.

Daí nascem conflitos, ações impensadas e buscas por aquilo que satisfaz. Buscam em eletrônicos, entorpecentes e sexo aquilo que sentem de falta em suas vidas. Veem um cenário onde os sentimentos e as relações verdadeiras estão afastadas, um contexto onde os relacionamentos não funcionam como eles entendem que deveriam funcionar.

As relações com os pais

Figuras maternas

Ambos possuem relações disfuncionais com seus pais. A figura materna se apresenta como um ponto central nessa construção de visão de mundo e construção de afetividade. A ausência da mãe para James e as escolhas da mãe de Alyssa são doloridas, eles sentem falta de apoio e afetividade. Ambos se sentem desconectados e desamparados por suas mães, o que causou impacto em suas formações, especialmente com relação à expressão de afetividade e à conexão com os outros.

A falta que a mãe faz para James é apresentada especialmente quando eles se sentam em um banco no jardim de sua casa. James diz que odeia aquele banco, quando na verdade sente tristeza e nostalgia ao lembrar que ficava ali com sua mãe. Por detrás dessa máscara de impassibilidade, tem muitas emoções que ainda não vieram à tona.

Com relação à mãe de Alyssa, ela construiu ao seu redor uma família conforme os padrões sociais. Como Alyssa diz, com a casa perfeita, o jardim perfeito, os gêmeos perfeitos. Mas percebe a infelicidade e o vazio também existentes em sua mãe. Sente-se então deslocada dentro de sua própria casa e projeta a sua frustração com relações ‘perfeitas’ e dentro dos padrões sociais, se afastando de comportamentos e pessoas que agem conforme a maioria.

Figuras paternas

As figuras paternas também são dissociadas dos personagem. O pai de James não o enxerga e de sua maneira faz suas brincadeiras, mas que nunca geraram nenhum tipo de reação positiva no filho. Muito pelo contrário. The End of the F***ing World mostra uma relação unidirecional pai-filho, apresentando a importância do pai parar e ver de fato quais são as necessidades de seu filho, o que ele espera e quais são suas buscas. Ele não encontra nem apoio, nem o vê como um modelo masculino. E isso agrava sua visão vazia de vida e de mundo.

Com relação ao pai da Alyssa, ele está ausente desde os seus 8 anos, mandando apenas cartões de aniversário. Ela não o culpa por ter ido embora, uma vez que ela mesma também não gosta de sua casa. No lugar do pai, Alyssa tem seu padastro que dá em cima dela, com vista grossa de sua mãe. Essa sexualização da relação e a percepção de falta de proteção de sua mãe com relação a essa situação aumenta o distanciamento dela de sua casa, gera confusão e tristeza. Paralelamente, ela desconta essas emoções negativas justamente na área sexual (como ela mesma chega a dizer quando vai para a casa de James).

Isso mostra uma erotização precoce, com uma transposição indesejada da busca do amor e do desejo de sexualização vindos da figura do padrasto. O primeiro amor de uma menina normalmente é seu pai, só que é um amor puro, ingênuo, seguro. Esse deslocamento sexual para a pessoa que está na família em uma posição análoga ao seu pai, gera muita confusão e medo em Alyssa.

 

Por |2018-06-06T11:19:04+00:0019 janeiro 2018|Análise|

Sobre o Autor:

Presidente do Instituto Loureiro de Desenvolvimento Humano e da Novah Agência de Comunicação. Desenvolvedor humano, coach, mentor, professor, escritor, matemático, terapeuta corporal ayurvédico e tântrico, autor e palestrante. Pesquisador e um dos pioneiros da aplicação integrada de técnicas e conceitos de Pedagogia, Coaching, Mentoring e Ayurveda no desenvolvimento de pessoas. Atuou durante mais de 20 anos como professor e palestrante, tendo desenvolvido milhares de pessoas ao longo desse período. Cursou Engenharia Civil, Bacharelado em Estatística, Licenciatura de Matemática e Marketing com especializações nas áreas de Psicologia, Educação, Marketing e Astronomia, pelas instituições USP, FGV, FAAP, UNIP. Violonista clássico, geek e colecionador de livros e documentos raros.

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