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Sobre méritos e privilégios: uma corrida por 100 dólares que viralizou

//Sobre méritos e privilégios: uma corrida por 100 dólares que viralizou

A vida é desigual. Sua desigualdade é refletida nas mais variadas expressões de existência. Naturalmente é uma tolice acreditar que as pessoas são iguais ou que partem do mesmo ponto. Elas não tem as mesmas condições para alcançar seus objetivos. O mérito das conquistas está, sim, em quem foi atrás do que queria, independentemente da dificuldade. Porém não podemos esquecer de que é uma luta desigual. Alguns tem privilégios.

Antes de continuar a leitura, convido você a assistir o vídeo abaixo:

 

Imaginar que o motivo pelo qual alguém ainda não conquistou os seus objetivos tenha a ver com esforço é no mínimo simplista e no máximo cruel. Conhecer a história, o contexto, as dificuldades antes de se achar no direito de julgar.

A meritocracia é uma forma injusta de ler a vida e de estruturar a ordem das coisas. Ela só seria correta se todos estivessem nas mesmas condições iniciais de disputa.

Princípio da Igualdade e a observação dos privilégios

Existe uma máxima no direito que afirma que se deve “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida em que eles se desigualam”. Esse é o Princípio da Igualdade ou Isonomia. Dessa maneira, a leitura dos fatos e a delimitação de ações devem ser pautadas pela correta separação de estados iniciais e condições de vida.

Não é uma luta para trazer para trás os que estão na frente, mas sim criar possibilidades para que venham para frente os menos favorecidos.

Repare que esses desfavorecimentos não tem nada a ver com o que fizeram ou tenham deixado de fazer. Tem a ver apenas com o entorno de suas vidas.

A casa em que nasceram, o seu bairro, a condição financeira de seus pais, seu acesso à alimentação de qualidade, se foram vítimas diretas ou indiretas de violência, se seus pais ainda estão vivos entre muitos outros.

Por que então julgar alguém por algo que não tem responsabilidade? É papel da sociedade buscar continuamente corrigir essas distorções.

Investigando a desigualdade: Pierre Bourdieu e o Capital Cultural

O filósofo francês Pierre Bourdieu dedicou grande parte de seus estudos para compreender a dominação e as forma de manutenção dos privilégios. Sua teoria baseada de Capital Cultural afirma que o que mantém a elite dominante não são os meios de produção (como acreditava Karl Marx), mas sim aquilo que é valorizado culturalmente.

Você já deve ter ouvido alguma pessoa com origem humilde falar que não pode entrar em determinado estabelecimento (restaurante ou teatro por exemplo) porque não é lugar para ela. Imagine uma pessoa com roupas humildes na fila de entrada de uma ópera ou de um show badalado. O que as outras pessoas da fila ou o segurança fariam?

Assim, em um mundo onde a música eletrônica da elite é mais valorizada do que o rap da periferia, aqueles que nasceram dentro de um contexto ouvindo música eletrônica terão mais recursos internos. Conseguirão viver com mais facilidade no mundo em que se é valorizado aquilo que eles estiveram imersos desde que nasceram.

Dessa forma se mantém os privilégios culturais

É como se houvessem dois povos coabitando uma ilha. Uma parte deles vive na praia e o restante vive no interior. Imagine que passe a existir (muitas vezes forçadamente) uma máxima: tudo que é relacionado à praia é excelente, digno de adoração e busca. Saber surfar, fazer castelo de areia, tomar banho de sol.

Quem você, querido leitor, acha que estará mais apto e será visto como sendo o futuro promissor dessa pequena sociedade? A criança que nasceu na praia ou aquele que nasceu no interior?

Agora perceba que existe um problema lógico: quem disse que praia é excelente? Quem mora na praia, oras! Assim se perpetuam os privilégios. Quando uma sociedade acredita que aquilo que é bom, belo e certo tem a ver com os aspectos culturais da elite.

Já que a vida é desigual, por que não valorizar essa desigualdade? Dar privilégios para os talentos e apoio para corrigir distorções. Olhar aquilo que não tem nada a ver com as ações ou a natureza da pessoa.

Por | 2018-06-06T11:19:05+00:00 12 dezembro 2017|Opinião|

Sobre o Autor:

Presidente do Instituto Loureiro de Desenvolvimento Humano e da Novah Agência de Comunicação. Desenvolvedor humano, coach, mentor, professor, escritor, matemático, terapeuta corporal ayurvédico e tântrico, autor e palestrante. Pesquisador e um dos pioneiros da aplicação integrada de técnicas e conceitos de Pedagogia, Coaching, Mentoring e Ayurveda no desenvolvimento de pessoas. Atuou durante mais de 20 anos como professor e palestrante, tendo desenvolvido milhares de pessoas ao longo desse período. Cursou Engenharia Civil, Bacharelado em Estatística, Licenciatura de Matemática e Marketing com especializações nas áreas de Psicologia, Educação, Marketing e Astronomia, pelas instituições USP, FGV, FAAP, UNIP. Violonista clássico, geek e colecionador de livros e documentos raros.

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