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Bright: um filme sobre preconceito e ganância

Análise Coach

//Bright: um filme sobre preconceito e ganância

O filme Bright foi lançado recentemente pela Netflix e embalado com uma ousada linguagem visual, conceitos profundos sobre a natureza humana. Ele retrata em especial duas características: o preconceito e a ganância. O filme de Will Smith, dirigido por David Ayer (Esquadrão Suicida)  apresenta a vida de dois policiais, um humano e o outro orc, que tem suas vidas alteradas depois de um incidente em um dia de patrulha.

Ao tratar de segregações e escolhas difíceis, Bright nos convida a refletir sobre o que faríamos nas situações apresentadas. É impossível não se colocar na pele de um personagem que sentimos afinidade e o filme explora bem essa característica que todos temos. Assim, passo a passo no filme, somos convidados a fazer escolhas e ao mesmo tempo conhecer a nós mesmos.

Essa é a principal característica do filme: instiga o espectador a pensar sobre difíceis decisões e assim passa a conhecer um pouco mais sobre si mesmo. Tendo à sua frente o seu sistema de valores, ele passa a se conhecer melhor.

Bright, um filme de símbolos com cores fortes

Bright como a maior parte dos filmes, é absolutamente metafórico. Usa de símbolos para transmitir conceitos. Sempre damos o conselho de ver por detrás do filme. Observar o significado das coisas, e não apenas o que está sendo visto de forma literal. Assim, assistir a um filme, uma série ou uma peça de teatro sempre se perguntando: o que isso representa?

***Alerta de SPOILER | a partir desse ponto o texto apresentará spoilers do filme, se você não deseja ver, pare a leitura agora. ***

Essa forma de ver a arte permite que sejam alcançadas camadas mais profundas do que apenas as superficiais. Tira a distração da frente e permite que o espectador se transforme de alguma maneira depois de ver o filme.

Um exemplo disso é a fada. Ela é retratada como um figura masculina, feia, raivosa, que rouba alimentos, importuna e agride as pessoas. Tanto que uma delas é morta no início de Bright. Chegamos a receber a informação de que existe um serviço especializado apenas em exterminar fadas, como acontece com pragas em nossa realidade. Observe a dissociação que  existe da imagem que temos em nosso imaginário sobre fadas. Ao retratar dessa maneira, Bright mostra um mundo sombrio, agressivo e hostil. Dá o tom da narrativa. O universo de Bright não é agradável, existem conflitos que são resolvidos de forma dura e agressiva.

Orcs e a segregação racial

O parceiro de Scott Ward (Will Smith) é Nick Jakoby (Joel Edgerton), um orc que desde pequeno teve o sonho de ser policial. No universo de Bright, os orcs são uma raça embrutecida, habitante da periferia, envolvida com tráfico e violência. Não existem orcs na polícia, e Jokoby enfrenta preconceito agressivo em seu dia a dia. Especialmente depois que ele estava distraído quando seu parceiro foi baleado.

Jakoby

Esse preconceito e desconfiança são mostrados como ‘ancestrais’, lembrando constantemente de um tempo em que os orcs e humanos estava em guerra. E os humano subjugaram os orcs.  Nesse mesmo universo existem os elfos. Criaturas estéticas, que moram em uma região exclusiva, andam com carros de luxo e os poucos orcs que estão lá, são seus funcionários.

Essas são claras referências ao preconceito e discriminação racial, especialmente com os negros e latinos nos Estados Unidos. Chama a atenção o fato do personagem principal ser interpretado por um negro, o que reforça a ideia da causa racial.

Por conta da desconfiança e hostilidade que os humanos tem com relação aos orcs, Jakoby é constantemente alvo de bullying, tentativas de tirá-lo da corporação e até intenção de matá-lo. Isso vemos nos dias atuais, com a população negra sendo estigmatizada, segregada e sofrendo forte pressão social para não ocupar cargos ou posições que ‘não deveriam’.

O ideal de um homem

Jakoby é um idealista que sempre sonhou em entrar para a polícia. Consertar o mundo. Ele tem tanto amor pela polícia que rejeita a sua natureza, chegando a raspar seus dentes para não parecer tanto como os outros orcs. Isso acontece no mundo real, em contextos em que a população negra raspa seu cabelo ou corta bem curto com vergonha de sua identidade racial.

O sonho dele é ser como seu parceiro, Ward. Repare que seu herói é inatingível, especialmente pelo fato de ser de outra raça. Assim, Jakoby rejeita sua própria natureza, suas qualidades (força física e olfato superiores, por exemplo) para admirar e desejar o que foi dito a ele que é ‘bom e correto’. Os modelos sociais são impostos pelas classes dominante, como dito pelo filósofo francês Bourdieu em sua visão sobre o Capital Cultural e a manutenção de privilégios.

Assim, Jakoby está preso em um mundo que o rejeita. A lógica dominante se impõe à sua vontade de fazer parte e ajudar o mundo. Isso o pressiona porque ele foi longe demais. Sua raça o rejeita por achá-lo fraco e traidor. Os humanos não o veem como um parceiro de luta. Os elfos desprezam sua existência.

Apesar disso, ele mantém uma atitude positiva, buscando superar a segregação e sua pouca experiência oferecendo seu melhor para seu parceiro.

Jakoby e Ward: os nomes dizem muita coisa

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Como mencionei acima, é interessante ficar atento aos detalhes metafóricos quando em contato com as artes. Os nomes dos personagens muitas vezes revelam muito sobre a intenção e visão do autor.

Jakoby remete instantaneamente ao personagem bíblico Jacó.

Este, filho de Issac e Rebeca, foi irmão gêmeo de Esaú. No nascimento, veio ao mundo agarrado ao calcanhar de seu irmão, daí seu nome. Jacó (Ya’aqov) significa: “ele agarrou no calcanhar”.

“E depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; por isso se chamou o seu nome Jacó. E era Isaque da idade de sessenta anos quando os gerou.” – Gênesis 25:26

Jacó significa enganar?

Muitas vezes o nome Jacó é traduzido como ‘Enganador’. Isso aconteceu por causa de um trocadilho feito por Esaú. Em hebraico, a raiz do verbo “enganar” é ‘aqav, enquanto que ‘aqev significa “calcanhar”. Repare que a diferença é de apenas uma letra. Como em hebraico não existem vogais, as duas palavras são escritas da mesma maneira.

Por ter sido o segundo filho, não recebeu os privilégios do primogênito. Porém, apesar disso, tinha preferência de sua mãe, o que causou ciúmes e inveja em Esaú. Ele tinha tanta mágoa de Jacó que chega a dizer em Gênesis 27:36

Então disse ele: Não é o seu nome justamente Jacó, tanto que já duas vezes me enganou?

Assim, Esaú está dizendo que o nome dele não era Jacó porque agarrou em seu calcanhar, mas sim porque o enganou duas vezes.

Repare que as duas interpretações cabem como uma luva para o personagem Jakoby. Ele sempre se encontra ‘segurando o calcanhar’ de seu parceiro, estando em segundo plano e não tendo os seus privilégios.

Além disso, ele é visto como um usurpador, alguém que está sempre sob a suspeita de estar enganando os outros em prol de sua raça. Uma farsa enquanto policial.

O significado do nome Ward

will smith brightPor outro lado, o nome Ward significa entre outras coisas, vigilância, proteção ou guarda. Revela a natureza do personagem do Will Smith, de estar sempre atento para fazer o certo e proteger não apenas as pessoas, sua família e parceiro, como também os valores e a moral que devem nortear as pessoas em uma sociedade.

Por isso é tão difícil e doloroso para Ward delatar o seu colega, tentando extrair uma confissão de culpa gravada sem ele saber. Para ele isso é muito errado, a traição não pode fazer parte da vida, especialmente com relação a um parceiro. Só que ele é jogado em um dilema moral: escolher entre sua carreira e o sustento de sua família (que está em dificuldades financeiras) e trair seu companheiro. Esse é um dos momentos em que o filme compartilha com a audiência essa dúvida. Ele convida o espectador a pensar: o que eu faria nessa situação?

Ganância e natureza humana

A narrativa gira ao redor de um conflito pela posso de uma varinha mágica. Quem o possuir terá seus desejos atendidos. E sabendo disso, policial e bandidos se confundem para ter suas vontades realizadas. Agentes da lei tramam para matar colegas, gangues e orcs matam indiscriminadamente, elfos passam a se misturar com outras raças, infernis (uma raça demoníaca que originalmente possuía essa varinha) espalham mortes e destruição.

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Todos os dias vemos lutas para ter mais e mais poder. Troque varinha mágica por dinheiro, influência política, dominação ideológica entre muitas outros instrumentos de poder. Ficará bem clara a metáfora.

Citando Osho em seu livro Sacerdotes e Políticos: A Máfia da Alma

“Quando o poder vem às  mãos das pessoas, todos os cães adormecidos dentro delas começam a latir. O poder se torna um alimento para elas, uma oportunidade de extravasar. Não é que ele corrompa; as pessoas que o têm, em sua grande maioria, é que são corruptas.
O poder nas mãos de Buda ou de Jesus não corrompe, pelo contrário, auxilia a humanidade a elevar a consciência. O poder nas mãos de um Stalin ou de um Hitler destrói pessoas, derrama sangue, tortura, mata.
A maioria das pessoas estão vivendo sem consciência, e quando chegam ao poder todos os seus instintos inconscientes e suas tendências malignas têm chance de serem saciados, de virem à tona. O poder é mal usado porque que os usa tem o mal fervilhando dentro de si.
O poder em si é neutro, não é nem bom nem mal, vai depender do uso que se faça dele, da qualidade de quem o detém. As pessoas devem ser limpas de todos os feios instintos para exercerem o poder. O poder nas mãos de um homem de bem é uma benção, mas nas mãos de um homem mal, uma maldição”.

O poder não corrompe, revela

Em dado momento, alguns colegas de Ward e Jakoby chegam a uma área remota de um bairro violento e percebem que estão diante da varinha mágica. Decidem ficar com ela e pressionam Ward a matar Jakoby, se livrando dele aproveitando a cena do crime. Em troca novamente da segurança de sua família e agora a sua integridade física.

Ward resiste, mata os corruptos e foge com Jakoby e uma inferni que acabaram de conhecer. E então a trama se desenrola.

Bright nos mostra quanto é interessante notar o fascínio que o poder tem nas pessoas. Pense nas pessoas que você conhece, quantas desejam o poder? Com o que elas podem fazer, trazem coisas boas para si ou para os outros?

Essa é a mesma simbologia do gênio da lâmpada. E quando estamos diante desse cenário, somos novamente convidados a revisitar nossos sistema de valores. O que faríamos se tivéssemos a oportunidade de pedir o que quiséssemos? O que faríamos (ou fazemos) para ter poder?

É preciso estar pronto para o poder. Pitágoras dizia que o saber deveria ser transmitido aos poucos que tinham fortes valores morais e condutas pessoais exemplares, porque as grandes tragédias do mundo eram feitas não por ignorantes, mas sim por aqueles que tinham conhecimento. Mas que estava em mãos erradas. Como veremos abaixo, não é qualquer um que pode deter o poder.

Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades – Tio Ben, O Espetacular Home Aranha

Apenas os Brights podem segurar a varinha

Um ponto crucial do filme é que apenas os Brights podem segurar a varinha com as mãos nuas. Qualquer outra pessoa que tente segura-la será instantaneamente pulverizada.

Aqui cabe lembrar que a tradução de Bright pode ser brilhante ou resplandescente. Assim, apenas aqueles que tem dentro de si o brilho necessário pode ser capaz de empunhar os mecanismos de poder. Novamente, podemos lembrar da sabedoria pitagórica.

varinha bright

Diferentemente do filme, onde se nasce ou não um Bright, na vida real podemos cultivar essa luz interna. Antes de buscar o poder, devemos buscar a luz interior. Devemos buscar nossa evolução, para que à medida que formos conquistando mais e mais capacidade de intervenção no mundo, tenhamos sabedoria e bondade suficientes para fazê-lo.

O enredo revela que está havendo um movimento entre os infernis para trazer de volta ao mundo o Senhor das Trevas usando a varinha mágica e os elfos estão buscando a varinha para ter capacidade de impedir que isso aconteça. Nesse ponto, aparece um personagem que diz pertencer ao grupo dos magos e conta em um interrogatório que apenas a magia do Escudo da Luz seria capaz de impedir novamente o Senhor das Trevas.

Memórias felizes

Expecto PatronumLembra a mesma referente da magia Expecto Patronum (Feitiço do Patrono) de Harry Potter, que apenas a lembrança do dia mais feliz de sua vida seria capaz de iluminar a noite mais escura. Essa magia teria o poder de afastar até mesmo os Dementadores, entidades que tem o poder de tirar a energia vital de quem está perto.

“Parecia que toda alegria do mundo havia desaparecido”, disse Rony Weasley amigo de Harry certa vez.

Esse é um simbolo muito forte que podemos olhar com cuidado. O combate às trevas não se dá com mais trevas, mas sim com luz. Para acabar com a escuridão de um quarto, basta acender a luz.

Toda vez que estivermos diante de algo ruim, maldoso, temos a oportunidade de trazer para a cena algo de bom, algo de virtuoso que através de ação e do exemplo, conseguimos acrescentar algo. Buscar a construção, e não a destruição. E caso estejamos tristes, com raiva ou medo, buscar ficar atrás de um Escudo de Luz, lembrarmos de momentos bons, felizes e esperançosos.

Por |2018-06-06T11:19:05+00:0024 dezembro 2017|Análise|

Sobre o Autor:

Presidente do Instituto Loureiro de Desenvolvimento Humano e da Novah Agência de Comunicação. Desenvolvedor humano, coach, mentor, professor, escritor, matemático, terapeuta corporal ayurvédico e tântrico, autor e palestrante. Pesquisador e um dos pioneiros da aplicação integrada de técnicas e conceitos de Pedagogia, Coaching, Mentoring e Ayurveda no desenvolvimento de pessoas. Atuou durante mais de 20 anos como professor e palestrante, tendo desenvolvido milhares de pessoas ao longo desse período. Cursou Engenharia Civil, Bacharelado em Estatística, Licenciatura de Matemática e Marketing com especializações nas áreas de Psicologia, Educação, Marketing e Astronomia, pelas instituições USP, FGV, FAAP, UNIP. Violonista clássico, geek e colecionador de livros e documentos raros.

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