Sobre o bom conselheiro

//Sobre o bom conselheiro

Muitas vezes na vida recebemos conselhos vindos de diversas partes. Alguns pedimos, outros vem naturalmente. Como se houvesse uma inclinação natural das pessoas em pensar e tentar moldar a vida alheia. Conselheiros naturais. Vontade de moldar o pensamento e o comportamento do outro. O bom conselheiro é aquele que emite suas opiniões quando solicitado. Fala de forma construtiva e assertiva, de modo a atender os interesses de quem está recebendo o conselho.

Ao recebermos conselhos a torto e a direito, nos vemos em uma posição especial no mundo: o centro das atenções alheias. Não que isso necessariamente nos alegre. Na verdade tem o poder de produzir o efeito contrário. Passamos a nos sentir constrangidos de pensar por nossa conta, de fazer o que nos apetece.

Muitas vezes somos impelidos a rumar em uma direção contrária à nossa vontade. Forças externas que geram tendências de movimento.

Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro. – José Saramago

Necessidade de julgamento

O ser humano julga. Leva meio segundo para que determinemos em nossa mente a personalidade de um desconhecido. Estabelece critérios de certo e errado dentro de sua visão de mundo. Esse sistema de crenças molda suas escolhas e tendem a influenciar aqueles que estão ao seu redor. Nesse momento nascem os conselheiros.

Pessoas muito críticas são aquelas que tem um forte enrijecimento mental com alta vontade de julgar o mundo. São aquelas que acreditam ter encontrado a verdade dos fatos e tudo aquilo que não está de acordo com esse padrão, automaticamente está errado e precisa ser consertado.

A verdade é que aqueles que julgam demais tem por debaixo dessa couraça crítica uma pessoa insegura. Alguém que precisa se autoafirmar constantemente para sustentar sua autoimagem. Como é algo que não vai no centro da questão, precisa se alimentar constantemente. A pessoa passa a ficar cada dia mais crítica.

Bom conselheiro, mau conselheiro

Naturalmente é importante termos pessoas perto de nós que tragam suas visões, experiências e intuições para nossas decisões. Bill Gates disse que “todos nós precisamos de alguém que nos dê feedback”. Precisamos de alguém externo que nos mostre outra perspectiva que não a nossa autocentrada e muitas vezes, viciada.

O lance é conseguir filtrar essas pessoas. Podemos parar um pouco e lembrar das pessoas que influenciam nossas decisões. Quem eu percebo que realmente está querendo o meu bem? Quem de fato tem interesse em minha felicidade? Quem está em condições mentais, emocionais ou espirituais para oferecer conselhos poderosos para minha vida?

… do ponto de vista do governante o foco recai sobre a importância de escolher bons conselheiros e saber distinguir entre verdadeiros e falsos amigos – Quentin Skinner

Sabendo separar os invejosos, bajuladores, interesseiros, manipuladores daqueles que verdadeiramente nos amam, que sonham junto, que desejam o nosso bem, ajuda na hora de tomar decisões. Fechar os ouvidos e o coração para os maus conselheiros e abrir a alma para os bons conselheiros.

Mouros

Assim como Otelo, de Shakespeare, devemos tomar cuidado com o que implantam em nossa mente. Existem muitos Iagos que desejam manipular nossos sentimentos. O que estamos fazendo nasce de nossa deliberação, de nosso pensamento consciente ou do que algum conselheiro colocou em nossa cabeça.

“Em Chipre, Otelo tem poderes absolutos; pune Cássio por ficar bêbado sem investigar as causas do incidente. O mesmo erro Otelo comete em relação à esposa: uma vez persuadido por Iago de que ela o traiu, ele age sumariamente de acordo com o que lhe parece ser a justiça. Ele mata por uma questão de princípio, para que Desdêmona não traia mais homens. Otelo pensa em termos de justiça, cada vez mais enredado no dilema e amor e ódio. Convencido da infidelidade da mulher, quando Otelo a vê deitada, dormindo, iluminada apenas por uma vela, de certo modo ela se apresenta como a Desdêmona perfeita, sem mácula, a quem amava e a quem precisa matar. O sofrimento, assim como o conflito amor/ódio, são manifestos.” – Canal Shakespeare Brasil – UFPR

Devemos cuidar para não nos precipitarmos com os pensamentos, especialmente quando vem de outras mentes. Passar pelo crivo de nossa alma, de nossa mente. Atentar para o fato de que somos seres racionais, pensantes, capazes de tomarmos nossas próprias decisões. Não que vamos passar a ficar fechados para o mundo e ouvirmos apenas a voz de nossa mente. Mas precisamos de filtros. Poderosos filtros para saber o que permitimos chegar até nós e o que ficará do lado de fora.

Priming e o Efeito Flórida

Quando estamos expostos a uma pessoa, passamos a agir de maneira influenciada por ela. De maneira inconsciente, as palavras que ela diz, as experiências que nos induz a passar, as músicas que são ouvidas, tudo isso gera um direcionamento na forma de pensar. E isso é extremamente importante, porque tudo acontece em um plano inconsciente.

Em seu monumental Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar (Thinking, Fast and Slow), o Nobel de Economia Daniel Kahneman mostra o quanto nossas decisões muitas vezes são tomadas de modo inconsciente. Existem diversos elementos que influenciam nossa maneira de pensar, ver e agir. A grande maioria deles são inconscientes, ativados por um sistema automatizado dentro de nós. Tudo isso para garantir a economia de energia e permitir que sejamos melhor adaptados ao ambiente que estamos inseridos. Isso funciona muito bem em algumas situações, outras não.

Kahneman apresenta o Priming, um efeito baseado em uma memória implícita. A exposição a um estímulo (padrão de palavras, cores, sons etc.) influencia a resposta inconsciente de uma pessoa a outros estímulos.

Somos influenciáveis?

Quem demonstrou esse efeito foi o psicólogo social John Barg, da Universidade de Yale. Ele realizou um experimento com jovens entre 18 e 22 anos, convidando-os para formar uma frase com cada uma de 4 palavras apresentadas. A um dos grupos foram entregues palavras relacionadas à velhice como calvo, doença e Flórida (estado americano conhecido como destino de idosos). Ao outro grupo, foram oferecidas palavras aleatórias.

Depois, eram convidados a se irem para uma sala que ficava no final de um corredor para a realização de outros testes. O teste verdadeiro estava nesse corredor.

Os jovens que foram expostos às palavras relacionadas à velhice levaram muito mais tempo para percorrer o corredor do que os participantes do outro grupo.

Desse experimento surgiu a percepção de dois efeitos Priming, associação e padronização:

  • Houve uma associação entre as palavras oferecidas e um conceito central (velhice). Nossa mente é excelente para relacionar conceitos, mesmo que não tenham nenhuma relação. Quer fazer uma pessoa pensar em algo, não precisa dizer diretamente, basta dar ‘pistas’ usando ideias parecidas.
  • A evocação da ideia de velhice gerou uma mudança em seus padrões de comportamento. Eles andaram mais devagar. Espelharam o comportamento que para eles está relacionado com um idoso.

O poder do inconsciente

Esse efeito ficou conhecido como “Efeito Flórida” e mostra como podemos influenciar pessoas (e somos influenciados) inconscientemente pelo mundo exterior. E isso muda a forma com as quais nos comportamos.

Assim, para saber o padrão comportamental de uma pessoa, podemos olhar para as músicas que ela ouve, os filmes e programa que assiste e, especialmente, as características de seus conselheiros.

Quais são as palavras que essas pessoas mais costumam falar? A quais eventos esse conselheiro expõe quem ele aconselha? Essas são formas subliminares de influência geradas por quem está por perto. Se não temos consciência, não é tudo que pensamos que nasceu em nossa mente.

Quer saber se alguém será um bom conselheiro? Comece observando o que ela emite. Quais são as palavras que ela mais repete? Qual sua postura frente aos acontecimentos? Qual sua forma de se expressar com os outros? Isso vai influenciar você.

Quando o conselheiro atrapalha

O conselheiro atrapalha quando o efeito produzido vai contra os interesses genuínos de quem está recebendo o conselho. Para saber quando isso acontece é preciso, então, saber primeiro quais são esses interesses. O que realmente se deseja, quais os sonhos e objetivos que realmente alegrarão.

Depois é preciso ter ponderação nas escolhas de quem se ouve. Inclinar o ouvido para o conselheiro construtivo, aqueles que querem o nosso bem, e não o bem de si mesmo. Oferecer bons conselhos é antes de tudo, um ato de devoção, de entrega de seu pensamento para ajudar o outro em sua dúvida. Assim, é um ato externo, não uma manipulação para os interesses pessoais.

Além do mais, alguns conselheiros são sábios demais para precisar de auxílio alheio e outros presunçosos demais para solicitá-lo. Todos eles, porém, estão sempre preparados para bajular os favoritos do rei, motivo pelo qual concordam com todas as idiotices que venham a dizer. Afinal, a crença em que as próprias opiniões são as mais acertadas é algo que faz parte da própria natureza humana. É por isso que os corvos se encantam com a graça dos seus filhotes, e as macacas consideram os seus filhotes dotados da mais extraordinária beleza.

Tendes aí, portanto, um grupo de homens que invejam todos os demais e só admiram a si mesmos. Pois bem: se entre homens assim alguém sugerisse um plano de ação que já tivesse visto adotado em algum outro país, ou a respeito do qual pudesse citar um precedente histórico, o que é que aconteceria? Sem dúvida iriam comportar-se como se a sua reputação estivesse em jogo, pois passariam por tolos o resto de suas vidas se não conseguissem encontrar argumentos que pusessem por terra a sugestão apresentada.” – Thomas More, Utopia

Interesses e ego

Temos que tomar cuidado com as motivações das falas de quem nos aconselha. Muitas vezes críticas aparecem para sustentar uma posição, como que se fosse necessário dizer algo ruim sobre o que está sendo analisado para mostrar sabedoria ou sagacidade. Essas pessoas buscam lustrar o próprio ego, acreditando estarem em uma posição superiora a de outra pessoa quando tecem alguma crítica.

Perceba o jogo do ego: ao dizer que algo está ‘errado’, automaticamente o crítico se coloca na posição daquilo que é o ‘certo’. Estando portanto em uma posição superiora, de alguém que sabe como as ‘coisas funcionam’ ou que tem uma perspectiva mais ampla e poderosa da situação.

Claro que qualquer ideia apresentada pode ser melhorada, uma vez que todos somos imperfeitos. E se for algo ruim, deve receber um feedback realista. Assertivo, não agressivo. O que chamo a atenção é que antes de verificar a argumentação, tomemos um tempo para refletirmos se naquela situação está sendo feita uma análise imparcial ou se existem influências externas ao pensamento.

A quem interessa essa argumentação?

Quando me lembrei do que ele havia dito sobre certos conselheiros que temem não aparentar sabedoria a menos que encontrem alguma coisa para criticar nas idéias dos outros – Thomas More, Utopia

Resistência e resiliência

Passamos a vida em meio a um jogo de forças. A todo momento como vimos estamos sujeitos a interferências externas. Desejos de influência para que tomemos determinada ação ou adotemos certa postura. Precisamos de uma boa dose de autoconhecimento para saber quem somos nós em meio a esse turbilhão de pensamentos. Quais nossas verdadeiras vontades? O que de fato nos alegra a alma e nos aproxima de nossa missão de vida?

Se te apetece esforçar, esforça-te; se te apetece repousar, repousa; se te apetece fugir, fuja; se te apetece resistir, resista; mas saiba bem o que te apetece, e não recue ante nenhum pretexto, porque o universo se organizará para te dissuadir. – Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

O universo buscará trazer aquele que sabe o que o apetece de volta à vida comum porque são raras pessoas que buscam o que as alegram. Existem um pacto pela mediocridade, onde quem se destaca coloca em risco aqueles que estão acomodados em suas vidas.

Se por um lado precisamos saber o que nos apetece e resistir. Por outro precisamos ser resilientes para obtermos os resultados desejados e ampliarmos nosso desenvolvimento. Manter a nossa essência intacta, inexpugnável, enquanto nos moldamos aos ambientes que estamos inseridos. Absorver o que interessa, repelir o que entristece. Sempre com elegância.

Conselheiro poderoso

Todos nós possuímos a tendência de nos assemelharmos às pessoas que convivemos. Possuímos neurônios-espelhos que nos levam a estabelecer conexões com aqueles que estão ao nosso redor. Por isso tendemos a nos entristecer quando vemos alguém triste, ou bocejamos quando vemos alguém fazendo isso.

Somos influenciados então uma espécie de média das pessoas mais próximas a nós. Se quisermos saber como estamos agindo, pensando ou sentindo, uma boa estratégia é dar uma olhada em quem nos cerca. Por isso é tão importante escolher nossas companhias. Pessoas com pensamentos negativos, antiéticos, pessimistas geram essa tendência em nós. Por outro lado, aqueles que são solares, engajados, construtivos, tem a capacidade de nos elevar.

Muito além de suas palavras, nossos conselheiros influenciam pelas suas ações. Pela concordância entre seus discursos e o que fazem. Esses possuem autoridade moral ao falar.

Assim, estar próximo de alguém tão bom ou até mesmo melhor que nós em suas áreas tem o potencial de elevar nossa mente e nosso espírito. O conselheiro que tem a capacidade de elevar é aquele que compartilha de nossos interesses, agindo de forma ética e tendo muito a dizer. Possui os dois elementos centrais da oratória deliberativa, a honestas e a utilitas. A honra e a utilidade.

Os lábios da Sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento – Hermes Trimegisto, O Caibalion

O que acha de avaliar os conselhos que anda recebendo? Gostaria de conversar sobre seus conselheiros? Escreva para mim: marco@institutoloureiro.com.br, vou adorar conversar com você! 

Por |2018-06-06T11:19:06+00:005 maio 2017|Conheça os outros|

Sobre o Autor:

Presidente do Instituto Loureiro de Desenvolvimento Humano e da Novah Agência de Comunicação. Desenvolvedor humano, coach, mentor, professor, escritor, matemático, terapeuta corporal ayurvédico e tântrico, autor e palestrante. Pesquisador e um dos pioneiros da aplicação integrada de técnicas e conceitos de Pedagogia, Coaching, Mentoring e Ayurveda no desenvolvimento de pessoas. Atuou durante mais de 20 anos como professor e palestrante, tendo desenvolvido milhares de pessoas ao longo desse período. Cursou Engenharia Civil, Bacharelado em Estatística, Licenciatura de Matemática e Marketing com especializações nas áreas de Psicologia, Educação, Marketing e Astronomia, pelas instituições USP, FGV, FAAP, UNIP. Violonista clássico, geek e colecionador de livros e documentos raros.

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