8 ensinamentos de Animais Fantásticos e Onde Habitam

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//8 ensinamentos de Animais Fantásticos e Onde Habitam

Acabo de assistir o filme Animais Fantásticos e Onde Habitam e existem mensagens poderosas em sua história. Ela traz um convite para pensarmos sobre preconceito, racismo, xenofobia, machismo e depressão. Essas expressões humanas estão presentes em um mundo em que as pessoas estão separadas em grupos. Elas se fecham em seus pares e estão em constante alerta para conflitos.

Não é de se estranhar que o enredo passe após a Primeira Guerra, antes da crise de 1929. Nesse contexto, temos a ascensão do nacionalismo com o fortalecimento do movimento nazista na Alemanha. Como uma metáfora desse período, mostra uma realidade de quase um século atrás. Infelizmente até hoje vemos expressões de ódio, intolerância e segregação entre as pessoas.

Se você é fã de Harry Potter ou apenas gosta de simbologias que trazem ensinamentos poderosos, convido você a ler esse post até o final. Vai ser uma viagem fantástica!

Sobre Animais Fantásticos e Onde Habitam

O filme é um spin-off da série Harry Potter, também escrito por J.K. Rowling. Animais Fantásticos e Onde Habitam é um livro didático que aparece na saga Harry Potter, onde existe o catálogo de 75 espécies de criaturas mágicas ao redor do mundo. A história se passa 70 anos antes de Harry Potter.

Conta a história de um magizoologista que chega em Nova York com sua mala repleta de animais mágicos. Eles acabam fugindo e seu criador, Newt Scamander (Eddie Redmayne) com a ajuda de Tina (Katherine Waterston) passam a usar sua magia para conseguir recuperá-los. Em meio a essa situação, existe uma disputa entre os que detém a magia e os que não detém (os trouxas ou não-majs).

Em meio a tudo isso, os bruxos vivem em constante medo de Gellert Grindewald (Johnny Depp), pelo seu poder e sua visão radical com relação aos não-majs.

Os bruxos querem se manter escondidos para que não haja conflito com os humanos e em cima disso a história toda se desenrola. Nesse ponto, existe uma relação direta com X-Men: um grupo de pessoas especiais que são temidos pela maioria e por isso tem que se manter na clandestinidade.

Ensinamentos de Animais Fantásticos e Onde Habitam

*** ALERTA DE SPOILER *** Se você não quiser saber o que acontece no filme, NÃO continue a leitura.

Sempre podemos aprender com filmes que assistimos, alguns convidam a refletir sobre questões importantes de nossas vidas e de nossa sociedade. O filme Animais Fantásticos traz símbolos e pensamentos que ajudam em nosso caminho voltado para o autoconhecimento e para o conhecimento do mundo.

Luta contra xenofobia

Animais FantásticosClaramente o filme retrata com cores fortes a questão da segregação e discriminação entre pessoas. Xenofobia vem do grego xénos (estranho) e phóbos (medo), ou seja, medo ou aversão daquilo que é diferente, estranho a si.

Essa hostilidade pode ter origem étnica, religiosa, cultural ou qualquer outra característica marcante usada para definir um grupo. Essa manifestação é uma demonstração de forte identificação simbólica. Acreditamos que aquilo que é exterior a nós pode, de alguma maneira nos definir. E mais do que isso, nos localizar dentro do espectro social.

Assim, quando uma pessoa diz “sou isso”, está se posicionando ao lado de outros que dizem o mesmo. Ao mesmo tempo também se afasta daqueles que não são.

A questão é que isso tudo não passa de uma ilusão. Uma tentativa de buscar encontrar a si mesmo. Todo preconceito e em grau superior toda xenofobia passa por uma carência e uma necessidade de autoafirmação. Fruto de autoestima baixa. O conceito de ‘nós contra eles’ é fortemente usado para controle e comando de grupos. Nada melhor para unir pessoas do que ter um inimigo comum: a torcida rival, os crentes de outra religião, o resto do mundo.

Quem somos?

O que define e posiciona uma pessoa não é sua capacidade de se igualar. Ao tentar encontrar no mundo aquilo que se identifica, está se reduzindo a complexidade de nossa existência. Identificação significa ser igual, ser como, ter as mesmas características. Naturalmente somos muito mais do que qualquer coisa que existe no mundo e mais do que qualquer grupo de pessoas.

Somos expressões irrepetíveis, com características únicas. E cada um de nós é uma experiência belíssima que merece ser explorada.

Quem se livra da necessidade do ego de se proteger e se alimentar, consegue ouvir a si mesmo, ter autenticidade e serenidade na vida. Não precisa ficar hostilizando ninguém para saber seu valor.

A repressão e a dor amplificam o mal – A história de Credence

Um elemento crucial da trama está em um personagem chamado Credence Barebone (Erza Miller). Seu nome nome diz muita coisa. Em português Credende significa algo como crédito ou crença ou aceitação que algo é verdadeiro.

Ele faz parte de um grupo extremista de não-majs que denunciam a magia e lutam contra os bruxos. Eles compõem um orfanato que usa suas crianças para divulgar suas ideias.

Credence é um órfão que sofre com os abusos físicos de sua mãe adotiva May Lou Barebone (Samantha Morton) e a pressão e maltrato de seu pretenso mentor, Percival Graves (Collin Farrell), um auror poderoso da comunidade bruxa americana.

Ele reprime sua magia, o que faz com que seja criado um Obscurial, uma força mágica das trevas que parasita jovens, matando-os ainda novos.

O que isso representa?

Vejamos o quanto isso é significativo. Ao ser reprimido o nosso talento, nossa natureza, isso nos entristece. Rouba nossa energia vital, nossa potência, a capacidade que temos para interferir positivamente no mundo. Abraçando nossa essência, temos leveza para enfrentar as dificuldades do mundo.

Ao estarmos envoltos em sofrimento, nos consumimos. A aceitação de si e o apoio de quem confiamos é fundamental para deixarmos nossa luz aparecer.

A única pessoa que Credence acreditava verdadeiramente e a quem pediu ajuda foi Percival, que o rejeitou quando viu que ele não servia aos seus interesses.

Dor, abandono, solidão. Isso o aprisionou em seus pensamentos e em seu mundo especial. Criou uma força de destruição, o Obscurial. Vejamos como isso é simbólico, pois jovens que experimentam esses sentimentos trazem para suas vidas esse enegrecimento ao seu redor. Tomam decisões, se recolhem aos seus mundos e infelizmente, não raro, entram em depressão. Em casos extremos cometem suicídio.

O que pessoas como Credence precisam é precisamente de ‘crédito’. Dar valor a quem eles são, seus talentos, sua unicidade. Se não se encaixam em padrões sociais, isso os torna ainda mais notáveis. Expressões únicas que devem ser valorizadas e integradas em suas próprias histórias.

P.S.: Para os fãs de Harry Potter existe uma teoria circulando que Credence na verdade é Tom Riddle. Se ficou curioso, confira a teoria aqui. Nesse outro link também tem várias informações sobre Credence e uma cena cortada com ele.

O extremismo leva à destruição

Já que falamos sobre Credence, uma lição importante do filme é a consequência de posições extremas. Quando alguém adota para si uma visão com forte identificação, está fechando sua mente para a pluralidade do mundo. Isso faz com que se feche em suas verdades e busque converter o mundo naquilo que acredita.

E quanto mais extremista, mais hostil a pessoa é de quem não concorda com ela. Daí nascem as guerras, as disputas, as separações. Sendo imperfeito, como é possível ter a certeza plena da razão? Humildade intelectual para defender seus pontos de vista, mas ter abertura para ouvir e ponderar as visões dos outros.

Como a Parábola hindu dos Sábios Cegos ao redor de um elefante, estamos todos certos em nossa parcialidade e errados porque não temos como compreender a totalidade.

Quando uma pessoa acredita que sua forma de ver o mundo a define, isso a impede de se desenvolver e participar de debates construtivos de ideias. Os ‘donos da verdade’ são aqueles que estão fechados em sua visão de mundo e se arvoram para dizer aos outros o que é o certo e o errado a se fazer.

Cada um tem a sua forma de entender a vida e todos estão buscando a sua felicidade. Desde que não faça a mal a si ou a outra pessoa, cada um deve ter o direito de levar como bem entender sua vida.

Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro – José Saramago

Símbolo contra o machismo e o racismo

Animais Fantásticos e Onde Habitam traz à tona uma questão importante sobre posição de destaques para minorias. Seraphina Picquery (Carmen Ejogo), presidente do Congresso Mágico dos Estados Unidos, é negra. Ela comanda a entidade responsável por regular as atividades dos bruxos no país e garantir seus interesses.

Seraphina Picquery

Personagens fortes, que representam grupos discriminados são excelentes modelos para mudar gradualmente uma cultura. São preconceitos que estão na mente da maioria das pessoas e que alguma forma tornam-se mapas do mundo para elas.

Pessoas preconceituosas tem a mente distorcida para uma realidade dicotômica: ou é isso ou aquilo. Não existem espaços entre esses pensamentos. Sua leitura do mundo é rasa e muitas vezes agressivas. O preconceito é generalista, esse é o seu ponto fraco. Exponha isso e a existência de contraexemplo e cairá por terra o argumento preconceituoso. Nem todas as mulheres são burras, nem todo árabe é terrorista, nem todo negro é ladrão e por aí vai. Na verdade existem pessoas com as mais diversas características

Infelizmente situações como essas não são vistas com naturalidade e são igualmente incomuns no dia a dia. O valor de uma pessoa não está na cor de sua pele, em seu gênero ou qualquer outra característica que não seja sua competência. O valor de uma pessoa está na grandeza de seu espírito, em nada mais.

Quando os seres humanos estão com medo, eles atacam

E por falar em Seraphina, esse é uma das mais emblemáticas frase dela. Ela estava se referindo às criaturas mágicas que deixam os não-majs assutados. Essa é uma preocupação central dos bruxos, porque não desejam um conflito aberto.

O medo nos leva à sensação de paralisia, fuga ou luta.Animais Fantásticos e Onde Habitam

Muitas vezes buscamos atacar aquilo que não compreendemos. Lançamos ataques preventivos. Essa reação humana é particularmente nociva quando temos poucas informações. Quando decidimos por eliminar o que nos dá medo com informações superficiais e desconexas. Ou então quando nos baseamos em nossas crenças ou fantasias.

O que elimina de verdade o medo é a compreensão, a ciência, a visão. Estar de olhos aberto. É muito raso tentar exterminar o que dá medo, pois é no desconhecido que podem estar oportunidade para mudanças. A evolução acontece no espaço que ainda não exploramos.

Sabemos muito pouco. Quanto mais descobrimos, menos medo sentimos. Aumentamos nossa confiança na vida e nossa capacidade de estabelecer conexões. Não mais buscamos destruir, mas sim construir, gerar sinergia.

Estudamos o que é diferente para nos desenvolvermos e podermos conviver

Essa é uma frase do magizoologista Scamander, apresentando o motivo de suas pesquisas com criaturas mágicas. Como vimos acima, apenas a compreensão do que ainda nos é desconhecido por levar à evolução. Quando sabemos como esses universos funcionam, não precisamos mais temer. Temos todos os recursos para nos inspirarmos neles e conviver pacificamente.

A ignorância é a fonte das disputas. Ter uma visão integradora nos torna capazes de respeitar as diferenças e saber realizar composições.

Só é possível alcançar esse nível através de ações intencionais. É preciso assumir uma postura curiosa, investigativa, capaz de se maravilhar com a diversidade. Querer se libertar dos limites de seu mundo e se aventurar em espaços alheios.

Ver, refletir e compreender. Esses são três passos para uma vida em constante evolução.

A chuva limpa memórias ruins

Quase no final do filme, a cidade inteira já está sabendo da existência e das atividades dos bruxos. Toda vez que alguma atividade de bruxaria era descoberta por não-majs, um feitiço que apaga a memória (Obliviate) tinha que ser lançado. Porém, só é possível com poucas pessoas. Com tanta gente precisando ter suas memórias apagadas, Scamander utiliza seus conhecimentos sobre as criaturas mágicas para causar uma chuva que elimina as memórias de tudo aquilo que não faz parte do cotidiano.

Em uma cena belíssima, todos os cidadãos estão sob a chuva, leves com a resolução daquelas memórias que os chocou. Ela os renovou. Encheu de energia e boas vibrações.

Na vida real, não é possível nos livrarmos do que lembramos e nos faz mal. Mas podemos aprender com essas memórias e seguir em frente.

Com relação à chuva, ela pode nos ajudar a tirar o peso de nossa mente. Como se uma limpeza acontecesse em nosso sistema. Como uma ação de algo superior que remove as impurezas, permitindo que as jornadas sejam recomeçadas.

Faz muito bem para o corpo, a mente e a alma entrar em contato com a Natureza. Quando foi a última vez que você tomou banho de chuva? Com os pés descalços na terra fica ainda melhor.

Reconhecemos o amor

O padeiro não-maj Jacob Redmayne (Dan Fogler) se apaixona pela doce bruxa Queenie Goldsten (Alison Sudol). Ela tem o poder de ler mentes e acha encantador a sua forma de ser, pensar e sentir. Como Jacob não se encaixa em algum padrão de beleza, ao contrário de Queenie, ele fica surpreso quando percebe que seu amor era correspondido.

Amamos a essência das pessoas, não suas imagens

Só que no final, por ele ser não-maj, tem que ter a sua memória apagada para garantir o segredo dos bruxos. Isso fez com que apagasse toda memórias do mundo fantástico que descobriu, incluindo o amor por Queenie.

Quando volta para a sua vida normal, rotineira e entendiante, recebe de uma pessoa desconhecida uma maleta cheia de prata, para que pudesse abrir seu negócio e seguir com seus planos.

A sua padaria faz muito sucesso e sua produção é toda baseada nas criaturas mágicas que ele conheceu, mesmo sem se lembrar de algum dia ter visto uma delas.

Na última cena do filme, ele se surpreende com uma visita. Uma linda mulher, de costas vendo suas prateleira. Quando ela se vira, ele sorri. Era Queenie.

Vidas após vidas

Quando vi essas cenas na hora me veio na cabeça a ideia de renascimento. Das diversas vidas que experimentamos e que de alguma forma se relacionam. Trazemos consequências boas e ruins de outras existências.

Ao nascermos, nos esquecemos do nosso passado, do mundo mágico que habitávamos para ter uma experiência nova, muitas vezes entediante. Esse tédio pode ser reflexo de uma lembrança que bem no fundo todos temos de uma existência especial.

A boa notícia é que podemos sentir todas as maravilhas que existem além de nossos sentidos e até mesmo além de nossas memórias. Animais Fantásticos no mostra que temos que estar atentos, nos conhecermos, saber ler os sinais sutis da vida. Nos abrirmos para a vida.

Às vezes alguém cruza nosso caminho e nos ajuda, sem mais nem menos. Consciente ou inconscientemente ela sente um movimento interno na nossa direção. E oferece o que tem de bom, muitas vezes no momentos que precisamos. Talvez seja alguém que conhecemos de outras vidas.

Uma inquietação importante que Animais Fantásticos traz é a de que nossas inspirações possam ser reflexos de lembranças de experiências que não temos em nossa consciência. Mas que em algum tempo estivemos lá e que faz parte de nossa essência. Independentemente do tempo.

Jacob e Queenie

Finalmente, o amor. Penso que quando olhamos pela primeira vez para quem amamos, não estamos propriamente conhecendo essa pessoa. Estamos reconhecendo. Ela é tão familiar, tão próxima.

Palavras não descrevem, não há como entender. Qualquer que seja a forma que tentarmos explicar, estaremos deixando de lado tudo aquilo que não foi dito. Assim como com qualquer coisa: palavras reduzem o que está sendo explicado.

Ao encontrar pessoas tão queridas nessa vida, vamos nos permitir sentir esse reconhecimento. Permitir entrar em nossa alma essa alegria por rever alguém tão querido. Desfrutar de momentos incríveis de vida, instantes que queremos que se eternizem.

Bônus

Encontrei alguns vídeos que falam sobre detalhes, curiosidades e outras informações do filme Animais Fantásticos e Onde Habitam. Para quem tiver curiosidade e quiser se aprofundar, aí estão:

Teaser do filme

7 coisas que você não viu em Animais Fantásticos

5 coisas para entender sobre Animais Fantásticos (com spoiler)

Animais Fantásticos! 10 coisas que você precisa saber antes de ver!

5 fatos que você não sabia sobre Animais Fantásticos e Onde Habitam

O que Grindewald quis dizer com “morremos só um pouquinho”?

15 cenas deletadas de Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam – Especial de Bastidores

Escola de Magia e Bruxaria de Ilvermorny

História da Magia na América do Norte

MACUSA – Congresso Mágico dos Estados Unidos da América

 

 

Por |2018-06-06T11:19:07+00:0028 abril 2017|Cine Coaching|

Sobre o Autor:

Presidente do Instituto Loureiro de Desenvolvimento Humano e da Novah Agência de Comunicação. Desenvolvedor humano, coach, mentor, professor, escritor, matemático, terapeuta corporal ayurvédico e tântrico, autor e palestrante. Pesquisador e um dos pioneiros da aplicação integrada de técnicas e conceitos de Pedagogia, Coaching, Mentoring e Ayurveda no desenvolvimento de pessoas. Atuou durante mais de 20 anos como professor e palestrante, tendo desenvolvido milhares de pessoas ao longo desse período. Cursou Engenharia Civil, Bacharelado em Estatística, Licenciatura de Matemática e Marketing com especializações nas áreas de Psicologia, Educação, Marketing e Astronomia, pelas instituições USP, FGV, FAAP, UNIP. Violonista clássico, geek e colecionador de livros e documentos raros.

One Comment

  1. Bruno Valdez 15 de setembro de 2017 at 14:40 - Reply

    O universo de J.K Rowling é incrível. O livro Animais Fantásticos e Onde Habitam é maravilhoso, faz um tempinho que o li, por que alguém me recomendou e adorei que fizeram a adaptação cinematográfica.Este filme se tornou em uma das minhas histórias preferidas desde que li o livro, quando soube Animais Fantásticos e Onde Habitam seria adaptado a um filme, fiquei na dúvida se eu a desfrutaria tanto como na versão impressa.

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