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Análise do Episódio Volto Já | Black Mirror T2:E1

//Análise do Episódio Volto Já | Black Mirror T2:E1

O episódio Volto Já (Be Right Back) da segunda temporada da série Black Mirror convida a refletirmos sobre apego. Até onde iríamos por conta da incapacidade de permitirmos que o curso da vida siga adiante? Muitas vezes vemos pessoas que tentam manter situações em suas vidas que já não existem mais. Tudo então passa a ser forçado, tem um aspecto de falso. Então, é preciso gastar mais e mais energia para manter aquela situação existindo.

Um casamento que já não existe mais afeto. Um emprego em que não se está nele apenas pelo salário. Relacionamentos familiares apenas pela obrigação social. Perdas de entes queridos, por força da morte ou não. Situações em que não existe a aceitação e a abertura para aprendizado e prosseguimento da vida.

Se não existe a aceitação e ressignificação, a pessoa passa a buscar simulacros para preencher o vazio da perda. Tentativas de recriar uma situação que não existe mais. Relacionamentos com pessoas parecidas com o ex ou empregos similares aos anteriores que não deram certo, por exemplo.

Assista abaixo um trailer do episódio (legenda em espanhol):

Volto Já de Black Mirror utiliza o conceito Anicca, a impermanência budista

Antes de começarmos a análise do episódio é importante ressaltar um dos três ensinamentos fundamentais do Budismo (Dharma): a Annica. Ela diz que nada é estável, nada é imutável. A única constância da vida é a sua transformação. Estar apegado a algo é fonte de sofrimento. Acreditar que existe controle é uma ilusão, pois tudo que existe no mundo manifestado. Em algum momento mudará.

Buda ensinou que isso acontece porque os fenômenos são impermanente por existem a partir de causas e condições. Quando elas cessam, o fenômeno manifestado também cessa. Aceitar e aproveitar a impermanência é fundamental para a evolução do indivíduo.

Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários. – Heráclito

*** ALERTA DE SPOILER *** Se você não quiser saber o que acontece no episódio Volto Já de Black Mirror, não continue a leitura

Ele se chama Ash

Um recurso muio utilizado nas artes em geral e em Black Mirror em particular é o de utilizar o nome das personagens para apresentar algumas de suas características ou funções na trama. O nome dele é Ash, que pode ser traduzido como cinzas em inglês.

Isso nos lembra a passagem bíblica que diz: “o pó retorne à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o concedeu.” (Eclesiastes 12:7) e também a passagem: “Então o SENHOR modelou o ser humano do pó da terra, feito argila, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente.” (Gêneses 2:7).

Dessa maneira, Volto Já de Black Mirror está apresentando a transitoriedade da vida. O quanto somos frágeis e que tudo está em constante transformação. Nascimento, vida e morte. Ele é a personificação desse processo de constante mudança que enfrentamos na vida.

Ela se chama Martha

Marta, segundo a Bíblia (João 11:1-45 e João 12:2) foi irmã de Maria e de Lázaro, de Betânia. Ela foi uma das mulheres que acompanharam o calvário e a ressurreição de Jesus. Marta foi uma mulher decidida e de temperamento forte.

Em uma passagem emblemática da Bíblia, Marta se irrita com sua irmã, Maria, por ela estar sentada no chão aos pés de Jesus em uma de suas visitas ao amigo Lázaro. Para Marta, essa era uma postura errada de Maria, pois ia contra os costumes da época que dizia que o papel da mulher era cuidar dos afazeres domésticos.

Após mostrar sua irritação e pedir que Jesus interfira na postura de Maria, Ele repreende suavemente Marta pedindo que ela reavaliasse suas prioridades, colocando em primeiro lugar os valores eternos e não os valores passageiros.

Aqui vemos a relação do nome com a personagem. É um convite para o desapego, uma mensagem de que é importante não ficar ligado com coisas transitórias e ter a percepção de que existe algo que transcende. O que representa o carinho, o amor e a devoção não precisa estar fisicamente próximo. Existem realidades que estão além de nossos sentidos.

A desconexão no relacionamento

O episódio Volto Já de Black Mirror começa com Ash dentro de um carro em meio a uma tempestade, totalmente alheio ao que está acontecendo ao seu redor. Ele tem toda sua atenção no seu celular. Não percebe quando sua namorada, Martha, chega com duas bebidas quentes e está tomando chuva do lado de fora.

Já somos apresentados a uma poderosa metáfora: ele dentro de seu mundo não consegue perceber a tormenta que existe ao seu redor. Não tem a percepção do quanto seu distanciamento de sua namorada traz um clima péssimo para seu relacionamento (como a tempestade que cai sobre o carro).

Ela, que tem a consciência de que no relacionamento não existe mais conexão e quem está sentindo a chuva, ela que está do lado de fora do mundo dele.

Ele vive em outra realidade, fugindo do mundo real e gastando seu tempo em um ambiente virtual. Demonstra imaturidade e insegurança emocional, sendo apresentado esse traço de personalidade em suas brincadeiras e formas de se expressar.

Ela dirige na volta para casa

No caminho de volta para casa, no escuro e chovendo, é Martha quem dirige o carro. Aqui temos uma representação de como é conduzido o relacionamento deles nesse momento. Ela é quem tem a lucidez para conduzir a relação uma vez que ele, alheio ao mundo exterior, abre mão das tomadas de decisão na vida real.

Ela mostra sua insatisfação com o comportamento dele e apresenta sua posição de comando na relação ao mandar ele guardar o celular o porta-luvas do carro enquanto voltam para casa.

Essa característica da relação pode ser vista também com as decisões simples da vida, como a escolha do sabor da sopa para o jantar. Para ele verdadeiramente tanto faz, sobrecarregando ela com as decisões do casal.

As fotos vão para o sótão

Ash conta para Martha que sua mãe lidava com o luto não querendo entrar em contato com a lembrança daqueles que se foram, mas que guardava as fotos em um lugar próximo (no sótão).

Isso mostra o que muitas pessoas fazem em situações de perda: ao invés de olhar para aquele vazio e ressignificar, buscam guardar essas lembranças em um lugar de suas mentes e seguir suas vidas como se nada tivesse acontecido.

Essa é uma forma de apego, de não trabalhar as fase do luto, de maneira a deixar seguir o fluxo da vida. Isso é mostrado bem no final do episódio, como a forma que ela não conseguiu se desconectar da presença física de Ash e deixa a Inteligência Artificial no sótão. Um ponto importante é que esse apego foi passado para a sua filha que também tem um relacionamento afetivo com a simulação de Ash.

Ele reclama por ter que ir sozinho devolver o carro

Apesar de Ash estar grande parte do tempo no mundo virtual, ele sente falta da companhia de Martha. Quando tem seus momentos de sobriedade, percebe que existe um espaço em sua vida que não está preenchido com uma relação sólida.

Com as atribuições e praticidades da vida, ao se perder as oportunidades que aparecem para curtir quem a gente ama, não encontramos outros momentos para suprir essa falta. Assim, pessoas que estão imersas em vícios como eletrônicos, jogos ou bebidas, por exemplo, quando está em seus momentos de lucidez, se dão conta do quanto seus relacionamentos se deterioraram enquanto estavam em seus mundos particulares.

Ela desenha um cachorro com chapéu enquanto ele vai devolver o carro

Black Mirror é uma série que temos que estar atentos aos detalhes. No episódio Volto Já, quando Ash tem que sair para devolver o carro, Martha não pode ir junto porque surgiu um trabalho urgente para ela fazer. Ela é ilustradora e trata-se da criação imagem de um cachorro com um chapéu de investigador.

O chapéu de investigador

Esse símbolo remete à ideia de busca, de inquietação para saber mais, para descobrir verdades profundas que ainda não foram reveladas. Martha está inquieta com seu relacionamento e quer saber o que precisa fazer para ter uma relação saudável com Ash, mas ainda não tem respostas para isso. Dessa maneira, essa situação a angustia.

Esse chapéu remete aos usados por investigadores franceses, como o Inspetor Maigret, personagem de ficção criado por Georges Simenon que aparece em 75 novelas e 28 contos publicados entre 1931 e 1972. Uma de suas características principais era sua capacidade extraordinária de entender a natureza daqueles que ele investigava.

Martha se esforça para ter essa compreensão sobre Ash e a partir daí trazê-lo para uma vida a dois.

O cachorro

Em várias expressões mitológicas, o cachorro tem associação com o mundo invisível e com reinos subterrâneos. ele tem muitas vezes uma relação com a morte e o inferno. Em oposição, ele também é associado à lealdade, à fidelidade, desempenhando muitas vezes o papel de vigia de uma morada.

Em diversos mitos, o cão aparece relacionado com jornadas de almas, como nos mitos de Anúbis, Cérbero e Hermes. Para os egípcios, o cachorro é o guardião dos portões sagrados e tem como missão enfrentar os inimigos da luz. Para os mexicanos, eles eram guias no outro lado. Devido a isso, era comum enterrar os cães junto com seus donos, para que os guiá-los pelo mundo dos mortos.

Da mesma forma, no episódio Volto Já de Black Mirror, o cachorro é um prenúncio de morte e também do apego, uma visão extremada da fidelidade canina. Dessa maneira, o episódio nos mostra uma síntese de sua natureza. Ele vai convidar o espectador a refletir sobre perdas e sobre o apego.

Enquanto espera o retorno de Ash, Martha vê uma mariposa na janela

Novamente Black Mirror utiliza da simbologia para apresentar algum conceito profundo. A mariposa é um símbolo de transformação através da morte. Simboliza a imortalidade e o renascer. Dessa maneira, Volto Já de Black Mirror está apresentando o momento de ruptura do episódio. Dali para frente haverá uma profunda mudança na vida das personagens por conta da morte.

A partir de então, Martha terá que lidar com a perda e a mudança que isso trará para sua vida.

Interação com eletrônicos

Todos os eletrônicos no episodio Volto Já de Black Mirror tem suas interações sendo feitas de forma direta. As personagens não utilizam mouses ou touch pads. Isso mostra a proximidade que as pessoas estão de seus celulares, computadores e tablets.

Existe um relacionamento direto com eles.

Além disso, são levados para todos os lugares. Por exemplo, em diversas cenas os eletrônicos podem ser vistos em momentos de intimidade, como na cama ao dormir ou no banheiro.

Isso mostra o quanto esses aparelhos estão em nossas vidas e no meio de nossos relacionamentos.

Os eletrônicos passam a permear o dia a dia e ao mesmo tempo deixam as pessoas conectadas permanentemente com o mundo virtual. Muitas vezes compartilhando informações pessoais valiosas.

O impacto de um ponto de ruptura

A notícia de sua gravidez é um ponto de ruptura emocional para Marta. A partir de então ela começa a se aventurar na tentativa de contato com Ash.

Muitas vezes quando a pessoa está abalada por algum evento com forte carga emocional, ela não tem estrutura para lidar com outras fontes de pressão. Assim, acabam cedendo a soluções que parecem fáceis e que tem efeito imediato.

Volto Já de Black Mirror mostra que quando lidamos com situações de estresse, é importante ter a clareza dos motivadores para a tomada de determinadas decisões. Verificar se essa atitude está sendo tomada por causa de ponderações racionais ou por conta de fatores emocionais.

Ela se isola das pessoas

Ao estar aficionada com a tentativa de recriar o vínculo que tinha com Ash, Martha se desconecta do mundo real. Dessa maneira, ela não vê mais relevância das relação com as pessoas próximas a ela. Isso é demonstrado em sua relação com a irmã.

Depois que começa a se comunicar e se relacionar com a Inteligência Artificial, ela vê esses outros relacionamentos como sendo obrigações que atrapalham sua experiência.

Isso pode ser visto quando pessoas que estão enfrentando situações de luto passam a tentar reviver os momentos antigos e se afastam das pessoas e oportunidades de novos tempos. Assim, vivem com a cabeça no passado e não conseguem aproveitar o tempo presente.

A Inteligência Artificial quer dados

Para que a Inteligência Artificial de Volto Já oferecesse mais recursos e customizações, Martha tinha que oferecer mais acessos a informações restritas dela e de Ash. Essa é a troca que fazemos diariamente em sites e aplicativos, por exemplo. Se quisermos que eles ofereçam produtos e serviços customizados, oferecemos em troca nossas informações pessoais.

Assim, entregamos informações como nossas preferências, locais de visitação, interesses, comentários, curtidas, transações financeiras, orientações políticas, entre outras. Isso em troca das facilidades e serviços tidos como gratuitos por sistemas utilizados.

Você não pode acender a luz do banheiro

Antes do surgimento da simulação física de Ash, Martha recebe a orientação de não acender a luz do banheiro onde estava ocorrendo o processo de ativação. Além disso, ela tinha que deixar fermentar.

Isso é uma representação de que no processo de tentativa de substituição de uma pessoa, emprego ou situação de vida por outra, muitas vezes não existe a consciência de que isso está acontecendo. Dessa maneira, não acender a luz representa não ter a visão do processo que está acontecendo.

Para romper com essa lógica é preciso que se tenha clareza do que esta acontecendo. Deve-se fazer justamente o contrário: jogar luz nos acontecimentos. Assim, cria-se uma oportunidade de reflexão verdadeira sobre eles e seus impactos.

Ela se conecta emocionalmente com o contato com a mão da Inteligência Artificial

Após um início de desconfiança e receio, o toque físico foi modificando o comportamento de Martha. Após ela sentir a pele do novo Ash, ela passa a se sentir mais próxima emocionalmente dele. Assim, quando suas mãos são tocadas, ela sente uma profunda conexão com ele e passa a se deixar envolver naquela relação.

Volto Já de Black Mirror mostra que o toque entre as mãos é extremamente profundo entre os humanos. Assim, essa sensação transmite confiança, companheirismo e segurança. Quando um casal está andando na rua, ela seguem em geral de mãos dadas. Dessa maneira, o contato entre as mãos é uma forma poderosa de estabelecer vínculos entre as pessoas.

Afetividade com simulacros

Na parte crítica do episódio Volto Já de Black Mirror, Martha tem contato com a interação com uma Inteligência Artificial. Especialmente porque esse programa simulava as respostas de Ash.

O que no começo era visto com desconfiança, pouco a pouco foi aumentando o seu vínculo e dependência emocional. Como resultado, ela foi aprofundando sua dependência.

Isso durou até o momento em que percebeu que não era exatamente o Ash. Ela percebeu que o que supriu por algum tempo sua carência, passou a mostrar ainda mais a falta que ele fazia.

Mesmo com emoções que parecem incríveis do início (como as experiências sexuais dela com a Inteligência Artificial) depois de um tempo a pessoa volta à realidade. Assim, volta àquela emoção que ainda não foi bem resolvida.

Isso acontece em nosso dia a dia. Muitas vezes, por exemplo, vemos pessoas que saem de relacionamentos de forma sem ser bem resolvida e entram em outros relacionamentos tentando suprir essa falta. Escolhem parceiros ou parceiras que sejam parecidos com a antiga pessoa.

No começo pode até parecer que esse espaço foi preenchido. Depois de um tempo existe a percepção de que estava usando aquela pessoa para suprir a falta da anterior.

Deixando fluir

O importante é saber superar a perda, para então começar uma jornada inteiramente nova. Desapegar daquilo que já não existe mais. Honrar e respeitar a própria história, e também sendo progressista. Não é para esquecer do que passou, mesmo porque isso é impossível. O que se pode fazer é entender que tudo tem seu lugar e seu tempo.

A vida é feita de fases e que o conjunto delas nos tornou que somos hoje. Aconteceram e quando terminaram, temos que ficar com as suas melhores lições e transformações. A partir daí seguir adiante, e não tentar repetir um passado que não voltará mais.

 

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Por |2018-06-06T11:19:02+00:0031 maio 2018|Análise|

Sobre o Autor:

Presidente do Instituto Loureiro de Desenvolvimento Humano e da Novah Agência de Comunicação. Desenvolvedor humano, coach, mentor, professor, escritor, matemático, terapeuta corporal ayurvédico e tântrico, autor e palestrante. Pesquisador e um dos pioneiros da aplicação integrada de técnicas e conceitos de Pedagogia, Coaching, Mentoring e Ayurveda no desenvolvimento de pessoas. Atuou durante mais de 20 anos como professor e palestrante, tendo desenvolvido milhares de pessoas ao longo desse período. Cursou Engenharia Civil, Bacharelado em Estatística, Licenciatura de Matemática e Marketing com especializações nas áreas de Psicologia, Educação, Marketing e Astronomia, pelas instituições USP, FGV, FAAP, UNIP. Violonista clássico, geek e colecionador de livros e documentos raros.

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